domingo, 5 de outubro de 2008
























































































Olá!Finalmente o dia chegou. Eu e o Alexandre estivemos na Grécia, país que é sempre lembrado como berço da civilização ocidental por conta das influências nas leis, nas artes e na cultura. Enquanto lá estive, aproveitei para visitar museus e galerias, que serviram como uma espécie de laboratório para o que estou fazendo no momento, levando a Galeria à escola.
A experiência de ter contato com as artes mostradas nos museus e culturas antigas pode ser traduzido como a mesma experimentado pelos alunos das escolas que tenho visitado, algo novo e transformador.

ONG - Fenações Integração Social

Fundadora: Luzia Rodrigues de Souza

Quantidade de alunos: 600

Faixa etária: 1,5 a 17 anos.
Galeria Escolar: “Bela Mulher” – Sala de aula.

O primeiro contato deu-se por meio de e-mail enviado pela professora de informática Sally Inácio. A ONG é uma pérola, situada no Recanto das Emas. Segundo os responsáveis - “Tem como objetivo prestar assistência à comunidade com programas que atendem crianças e adolescentes carentes e/ou em situação de risco. Tem creches que atendem crianças de 1 a 6 anos e um centro de educação profissional que atende jovens e adolescentes entre 7 e 18 anos em regime semi –integral. Trabalha também com a inclusão produtiva e de geração de renda com as famílias desempregadas”.
O tempo dos alunos é preenchido com atividades educacionais como: informática, serralheria, marcenaria, corte e costura, artesanato, inglês , ensino pré-escolar, integração social, meio ambiente, formação moral e prática de atividades esportivas.Além disso, a ONG trabalha com a inclusão produtiva, geração de renda com as famílias desempregadas e também fornece alimentação.

Primeira visita ...

Na primeira visita eu e o Floriano, que está documentando todo o evento, observamos que o caminho percorrido por 600 crianças é feio. O asfalto passa ao lado mas as crianças são obrigadas a passar no meio do lixo numa estrada de terra, o lixo é deixado ali, as margens do caminho, onde se tem um campo aberto, provavelmente um futuro “grande lixão” se aqueles que continuam despejando lixo ali não tomarem consciência

O retorno...



Dias antes da exposição retornamos, a Coordenadora Pedagógica Vânia e a Assistente Social Mariana foram as que prepararam o caminho para que a exposição chegasse. Neste dia fui para indicar a marcação dos furos e ver as crianças que já estavam envolvidas com o tema, a mulher e as deusas.

Levei uma caixa de madeira para ser decorada pelas crianças, fiz apenas uma sugestão, a caixa teria que ser decorada na cor vermelha.


O nome da Galeria

Depoimento por escrito entregue no dia da exposição.

“O nome nasceu depois da criação da caixa para colocação dos questionários que seriam preenchidos pelos alunos após visitarem a exposição na Galeria Escolar. O aluno Walef Rick Ferraz Silva ficou encarregado como coordenador dos demais alunos do artesanato na decoração da mesma. O Walef faltou alguns dias e os outros confeccionaram. Quando ele voltou, já no dia da exposição, disse que tinha certeza que conseguiria fazer melhor , juntou-se com o aluno Felipe Lima da Rocha e os demais transformando a caixa novamente, no último instante o grupo se reuniu e deu nome da Galeria como “Galeria Bela Mulher”.

A professora Marlene Rodrigues do Nascimento, do curso de artesanato ficou muito feliz com a realização do trabalho de seus alunos e agradecidos por participarem deste primoroso trabalho.
A caixinha foi decorada com jatos de areia , sementes,fita de cetim, e aplicação em tecido e fuxico, de uma imagem, que sugere uma mãe e suas duas filhas.
Uma obra de arte!

Dia da exposição

Sempre é motivo de preocupação o transporte das obras que são grandes e pesadas, as obras das deusas Atená, Hera, Ártemis e Afrodite, já carregam em suas molduras as suas marcas de identidade, o giro que estamos fazendo com elas , trouxeram suas cicatrizes. Não tive tempo para ir em busca de apoio, os orçamentos de traslado estavam acima de nossas condições financeiras. Precisava então recorrer a amigos, fiz alguns telefonemas e já podia contar com cinco carros! Infelizmente imprevistos acontecem e um dia antes só tinha três carros, na manhã da exposição perdi mais um carro e só restavam dois. O que fazer? Sabia que crianças estavam nos esperando. Pedi a Deus, só tem uma solução, que senhor torne elástico os carros !Ele me atendeu.

Colocamos as obras, os materiais, livros e lá fomos nós, eu , Alex, Aloilson, Maricin, Patrícia para mais uma exposição, para o retorno, pagamos uma van.





Primeiras Impressões...


É uma felicidade, como sempre, todos participam na montagem da galeria que deve ser rápida. Desta vez, um cronograma havia sido colado na entrada da Galeria, com horários de visitação, dois jovens haviam sido indicados para nos ajudar, Paulo Lima, que é voluntário da ONG e ajuda em tudo e a ex-aluna , hoje funcionária, Ronicléia que ajuda nos projetos.
A Galeria “ Bela Mulher” estava tomando forma. Da janela víamos a primeira turminha criancinhas de três e quatro anos saiam da creche, preparando-se para a visitação.

Os maiores já formavam filas, solicitei as professoras que me ajudassem no recebimento destas crianças.

No período da tarde a turminha da creche também veio visitar a exposição
.






A turminha da tarde...

Teve um momento que uma das professoras falou – Está vendo essa moça bonita (referindo-se a Afrodite) com o espelho?Uma criancinha disse “ - Eu quero ver” e pediu que a levantasse para ela se ver no espelho, todas quiseram se olhar, começamos a levantar crianças para que se vissem, eu as professoras e o Paulo, não sei quantas eu levantei.









Ao final da exposição recebi os funcionários e alguns alunos, interessante é que uma funcionária chamava-se “Deusa” estava orgulhosíssima por ter uma exposição com o nome dela, depois da visita guiada ela veio ao meu encontro para dizer-me que se identificara com a deusa Deméter, pois ela era exatamente assim como ela, maternal e carinhosa com todos. Respondi –lhe, pois é, como uma Deusa!
Antes de encerrar a exposição, recebi a visita da Sra. Luzia Rodrigues de Souza , fundadora da Fenações.






Escola Classe N ° 01 da Candangolândia

Diretora: Adriana Alves Vieira

Quantidade de alunos: 496

Faixa etária: 6 a 14 anos

Galeria Escolar: “Afrodite a Deusa Amor”- Sala de cursos, reforço e reunião.




Assim como na ONG, eu e o Floriano também estivemos visitando a escola.
A Candangolândia é uma cidadezinha pequena, muito interessante e urbanizada, limpa com algumas casas coloridas, as ruas são estreitas e asfaltadas. A cidade tem uma atmosfera de zona rural. A escola fica no final de uma rua entre as casas.
Interessante é que na entrada a escola é abraçada por duas casas associando a figura das deusas a escola é uma “Deméter”, uma grande mãe.

A nossa caravana desta vez era composta por três carros, o carro do Aloilson, da Maricin, ambos nos acompanham desde a primeira vez e um carro com motorista que nos foi gentilmente cedido pela Marina que é professora, não pôde vir mas fez questão de enviar o carro com motorista.





Nome da Galeria


Chegamos e enquanto a equipe composta por Alexandre, Aloilson, Maricin, Patrícia e o motorista senhor Jorge Borges retiravam dos carros as obras e as levavam para galeria. Encontrei a vice-diretora Zenaide e a bibliotecária Andréia fazendo os últimos retoques no cartaz em cartolina com letras recortadas e coladas, desta vez a Galeria recebeu o nome “Afrodite a deusa amor”. Fiquei surpresa com o nome, Zenaide disse-me que elas haviam escolhido este nome porquê nesta escola a palavra amor é muito utilizada . Uma das professoras me disse que a escola tem um projeto que trabalha com “valores”, a palavra do dia era “justiça”, as crianças após a visita a Galeria iriam assistir a um filme sobre essa palavra, justiça. Tem sido assim mesmo, cada escola tem seu perfil e suas surpresas.
A deusa mais amada, admirada, desenhada, comentada, a deusa Afrodite foi a escolhida para despedida nas escolas.



















































Nos questionários desta escola muitos falaram da sensação de “paz e alegria” sentidos dentro da Galeria. Imaginem! Uma obra de arte, que para alguns é considerada apenas um mero objeto de decoração teve, no entanto, para essas crianças tão pequenas, e carentes um grande impacto emocional. Alguns saiam olhando para trás com vontade de ficar mais.
Nesta escola os alunos demonstraram muito interesse pelo tema. Muitos estavam estudando e participando com perguntas.

Agora o Senado me aguarda. Acompanharão a exposição fotos das escolas, alunos, desenhos, os questionários para serem vistos na exposição Arquétipos-O Giro das Deusas, no período de 27 a 31 de outubro de 2008. Eu, Mary Jô Orfanidis os encontro lá.

Nesta etapa pude contar com a apoio de meus amigos como Aloilson, Maricin, Marina, o motorista Sr. Jorge , Patrícia, Alexandre e também com o Sr. Benedito da Benecolor-Serviços fotográficos Ainda não vou me despedir, mas agradeço a todos que de alguma forma contribuíram para que eu, os alunos, as escolas pudéssemos passar por estas experiências maravilhosas.
























segunda-feira, 14 de julho de 2008



Mary Jô Orfanidis fez como Colombo quando botou o ovo em pé. Inverteu as expectativas e levou o conjunto de uma de sua obras: Arquétipos - “O Giro das Deusas”, em uma mostra itinerante, até algumas das escolas públicas do Distrito Federal.
É uma virada interessante, essa de levar arte aos estudantes e professores, dialogar com eles, apresentar seus motivos, as técnicas e os materiais utilizados no processo de produção, os significados que o autor atribui aos seus objetos de criação. E vê-los reagir, ouvir-lhes a expressão, muitas vezes surpreendente, dos sentidos captados, da reconstrução subjetiva dos mesmos objetos.
Trata-se de um contato vivo e muito mais completo do que usualmente as galerias de arte permitem, tão distantes dos endereços escolares, tão sofisticadas em suas instalações, até para induzir a comercialização mediante o deslumbramento...
A mostra itinerante instala-se em uma das salas de aula e os trabalhos expõem o seu valor intrínseco à avaliação de um público interessado, não só porque há uma quebra de rotinas, mas porque se pode interagir com o autor e perceber a arte e o artista como uma possibilidade inerente ao ser humano interessado em assim fazer-se no seu quotidiano.
Dificilmente se pensaria uma experiência mais educativa que um contato como esse, cujos resultados podem ser maximizados mediante exploração didática. Pode haver uma preparação prévia do evento. Pode-se desdobrar as suas conseqüências nas atividades curriculares.
Eu acompanhei a mostra itinerante em duas escolas, uma urbana e uma rural. E dessa vivência tirei o depoimento que ora expresso. Seria muito bom para a educação e para os artistas que a arte se aproximasse às escolas.
Aloilson Pinto
Professor





“Olá, bom dia, sejam bem vindos à Galeria Escolar, meu nome é Mary Jô Orfanidis, sou artista plástica de Brasília e vim trazer para vocês a minha exposição - Arquétipos - O Giro das deusas...”
Este é o meu primeiro contato com os alunos, com idades entre 5 e 20 anos. Ao adentrarem a Galeria Escolar, o primeiro impacto, admiração por estarem em um ambiente com obras de arte nas paredes, ou seja, a Galeria. Talvez boa parte dos alunos desconheça uma Galeria. As professoras/coordenadora do lado de fora orientam os alunos para não tocar nas obras e para fazer silêncio para ouvir a explicação da artista. O antes é todo planejado. Alexandre, meu esposo, recebe-os na porta, indica a direção e tira fotos (os alunos adoram); Patrícia, minha assistente, coordena a entrada e saída dos alunos dentro da Galeria. Ela cronometra o tempo de 12 a 15 minutos e as vezes 7 minutos. Alguns alunos, ao responder o questionário, expressam o desejo de poder ficar um pouco mais, o que não é possível, pois são muitas as turmas a serem atendidas, algumas são tão grandes que eu tenho que dividi-las em duas de 20 a 22 alunos devido a estatura deles. Já a turma de crianças com 35 alunos de 5 e 6 anos pode entrar, pois são menores. O objetivo é que todos possam ver a exposição. A visita é guiada, começo com a deusa Hera e termino na mesa montada com livros, computador e objetos diversos, que simbolizam todo o processo criativo.

Movimentos...










A movimentação começa cedo, às 6:00 hs em minha casa. Descemos com as obras e os materiais. Lá embaixo, a turma que acompanhará em carreata a exposição em direção à escola agendada está aguardando.
Floriano filma os primeiros passos do “grande dia”. Para os alunos, cuja oportunidade é única, a experiência é inexplicável; para alguns, o dia será único “uma frieza inexplicada”, “ um friozinho”, “uma emoção”, “algo maravilhoso” como alguns citam o que sentiram no questionário.


Escolas





Centro de Educacional Nº 01 do Cruzeiro
Diretor: Antônio José Rodrigues Neto
Quantidade de alunos: 780 aproximadamente – idade: 11 a 20 anos.
Galeria Escolar: “Vivência com Arte”- Sala de Artes.

O grupo saiu em carreata e no meio do caminho nos perdemos. Mas tudo acabou bem. Ao passo que o Sr. Paulo e o Alex retiravam as obras do carro, Aloilson, Helena e Aristos, ajudavam carregando as obras. Floriano já estava filmando para não perder nenhum detalhe do evento. Achei a escola um pouco diferente, mas tinha o mesmo nome Centro de Ensino Nº 01. Para minha surpresa aquela não era a escola, era a escola ao lado, Centro Educacional Nº 01 do Cruzeiro! Foi muito divertido! Rapidamente colocamos tudo de volta e fomos para escola agendada. Chegando lá, a TV já se encontrava lá, mas era para uma matéria sobre as condições precárias daquela instituição de ensino.
A minha ansiedade e curiosidade eram grandes, pois não sabia como os alunos haviam decorado e que nome os alunos haviam dado à “Galeria Escolar” que foi montada na Sala de Artes do Getúlio (pedi ao Getúlio para não me contar). Meu amigo Getúlio Cruz é professor de Artes e também ator de teatro e cinema, pois ele é um dos atores que está no filme “Loucos Por Cinema”. Foi ele quem fez o primeiro contato na escola para que a exposição pudesse ir até lá. Jandira, a esposa dele, se empenhou em divulgar o projeto por intermédio do Correio Braziliense (matéria do dia 29 de abril).
Fiquei encantada. A Galeria recebeu o nome “Vivência com Arte” segundo o Getúlio. Os alunos fizeram um sorteio e o nome foi dado por uma aluna. Também estava escrito “Seja Bem Vinda Mary Jô” com lindas letras em cartolina, enfeitadas com glitter e purpurina. Floriano registrando tudo, a equipe de apoio desembrulhando os quadros, todos nós trabalhando. Foi quando ouvi uma voz - as paredes não foram furadas! Só existe a marcação com os nomes das deusas. Sorte que eu havia levado furadeira, parafusos, arames, martelo, prego etc. Então recebemos a primeira turma depois do recreio.
O primeiro contato é maravilhoso, os alunos entram naquele ambiente de Galeria, já querem ir direto às obras de tão admirados que ficam, não é apenas um artista que está ali numa oficina, é uma “Galeria” com suas obras, com o artista criador daquelas obras. Eu mesma fico impressionada como a atmosfera muda, como uma obra de arte tem força e também com a capacidade da arte de tocar os corações e almas. Os alunos são muito acessíveis à arte, apenas não têm a oportunidade de manter contato com ela. Nessa escola pude contar com a força e o apoio de uma grande deusa, ou talvez todas numa só, a coordenadora de apoio, Fátima, que só falava uma palavra -Comportem-se! Senti que ela é muito querida e os alunos a respeitam muito. Posso afirmar que todos os profissionais da escola e, principalmente, os professores são grandes guerreiros, merecem todo o nosso respeito e atenção.








2ª escola










Centro de Ensino Agrourbano – CAUB
Diretora: Sheila Pereira as Silva
Quantidade de alunos:600- idade 5 a 17.
Galeria Escolar: “Acrópole”- Sala de Coordenação.


Acordamos cedo mais uma vez e seguimos para a escola. O lugar tem um cheiro de mato, muito gostoso, a escola é muito bonita, pintada em tons fortes de verde, vermelho, e, ao lado, encontra-se um pequeno posto de saúde e o correio. Gostaria de destacar a ação dos nossos bravos professores que construíram com recursos próprios a sala dos professores e a sala de coordenação que foi cedida para a Galeria. Foi surpresa também o nome e a decoração da Galeria.


Primeira imagem






Um grande movimento, de um lado, um grupinho de lindos adolescentes, meninas e meninos. As meninas que pareciam ter saído de um quadro,”Madonas” como disse Floriano, faziam artisticamente o nome da Galeria “Acrópole” e desenhavam duas grandes colunas de papel para colocarem na porta da Galeria. O professor de filosofia ensinou como escrever em grego o nome da galeria - quando vi a escrita em grego fiquei admirada, pois em nossa casa é ensinado o grego. Pude contar com o apoio dos alunos maiores que ajudaram a carregar as obras, a montar, a fixar os banners da exposição, todos muito amáveis. Nos divertimos muito, tirando muitas fotos. Fui surpreendida com turminhas enormes de crianças de 5 a 12 anos. Crianças lindas e muito educadas eram acompanhadas pelos professores que me ajudaram, pois tive que utilizar um vocabulário adequado a crianças tão pequenas, por exemplo, a palavra “Arquétipos”, cujo significado não conheciam. As deusas vieram da Grécia, país das Olimpíadas, que todos os alunos já haviam visto na TV. Então explicava que essas deusas vieram da Grécia e que são muito parecidas com mulheres aqui do Brasil. A deusa Hera virou a mulher que se preocupa com o nome da família e a tradição; Afrodite representa a vida na terra, a vida que é bela, tão bela quanto as meninas e mulheres que se amam e são vaidosas . A deusa Atena “virou a deusa sabida”. Existiam muitas meninas sabidas e meninos também, que gostavam de estudar assim como a deusa e queriam ter uma boa profissão. Algumas crianças ainda estão sendo alfabetizadas e não poderiam responder ao questionário entregue em sala de aula logo após a visita a galeria. Assim, combinamos que elas desenhariam a deusa que mais gostassem. Afrodite foi a preferida, seguida por Hera e Ártemis. A deusa Ártemis já tem uma bandeirinha erguida nessa escola. Todas as crianças diziam para não jogar lixo por causa do mosquito da dengue. Realmente muito cativante!



Planejamento




Na minha cabeça tudo estava perfeito, milimetricamente planejado do ponto à virgula. Mas... a vida nunca é bem assim! Três semanas antes, estava visitando escolas, participando de reuniões, negociando com a galeria do Senado, fazendo contatos com pessoas que me apóiam nesta primeira etapa, e comprando materiais diversos. Teve dias que precisava estar em três lugares diferentes.
Infelizmente, um projeto como esse não pode ser aplicado só com boa vontade, pois não é caridade, uma cesta básica não resolve, a fome é outra, fome de saber, de conhecer, e a grande vontade que presenciei foi a vontade de conhecer e de ter acesso à cultura. Pude perceber através dos olhares inocentes de crianças, que diante do primeiro impacto com a arte ficaram simplesmente boquiabertos, como se um novo mundo estava se descerrando em frente delas. Para mim, ficou claro que esse momento foi especial para elas e que seria uma experiência que levariam para o resto de suas vidas...
A escola está aberta à cultura, o espaço me foi cedido e os alunos também estavam abertos à experiência. Basta ler os depoimentos e ver os desenhos que exporei no Senado. Executei as obras com recursos próprios, e estou levando as obras às escolas em parte com recursos próprios, mas sozinha não conseguiria, já que são muitas as despesas.
Nesta primeira etapa pude contar com o apoio financeiro de um amigo que possibilitou recursos financeiros. Ainda assim, tudo foi válido, até os imprevistos. Sempre levo comigo amigos em carreata por conta dos imprevistos e posso considerar que tem sido uma grande ajuda. Graças aos amigos, pude contar com mão de obra para montagem e desmontagem, motorista e outros serviços necessários e não depender só da palavra. Sem eles o orçamento seria bem maior.
Esses são os pontos essenciais para a continuidade do projeto e que será aplicado nas 2ª e 3ª etapas. Por motivo de viagem, darei continuidade ao projeto em setembro. Estou interessada em qualquer iniciativa de natureza social. Apresentarei orçamentos para os interessados em participar deste projeto. Os recursos serão para atender os gastos materiais e humanos.
Os contatos poderão ser feitos através dos e-mails:
mjodeusas@gmail.com , amjorfanidis2@yahoo.com.br , já tenho dois espaços agendados, uma ONG - Fenações Integração Social e a Escola Classe n°01 da Candangolandia. Tenho consciência de que estou fazendo muito pouco, mas é o que posso fazer.










Conclusão

A força que me leva são os olhares expressivos e a sede de conhecer dos alunos. É um grande privilégio colocar a minha arte à serviço de uma sociedade ainda em formação. Confesso que por momentos pensei que não fosse conseguir, mas Deus tem enviado seus anjos para me ajudar. Ei-los: Heraldo Póvoas de Arruda, Floriano Regis de Oliveira, Maricin Rojas, Aloilson e Helena,Aristos, Patrícia, e Alexandre meu marido, que tem executado as seguintes funções: carregador, furador de paredes, empacotador, fotógrafo, segurança, e financiador. Também sou grata ao Sr. Paulo Rodrigues da LP Molduras. Para a segunda etapa já posso contar também com apoio da Comunidade Grega Ortodoxa de Brasília.



Até lá!










quarta-feira, 30 de abril de 2008

Entrevista concedida ao documentarista Floriano Regis, para realização de um documentário.

Qual foi seu primeiro contato com as artes?

Como os homens das cavernas, precisamente os Cro-magno, eu adorava desenhar nas paredes de minha casa; minha mãe comprava cadernos, mas eu preferia as paredes. Lembro com muita ternura desse tempo, pois minha mãe não me reprimia. Também recordo de gostar de folhear uma Bíblia ilustrada com desenhos maravilhosos; eu devia ter uns 4 ou 5 anos e ficava encantada.

Sou filha adotiva de Brasília desde 1973 e nasci no nordeste, em Mossoró-RN. Em minha adolescência, estudando no Caseb (colégio da rede pública), costumava visitar as exposições do centro cultural da quadra 508; achava lindas as obras-de-arte e imaginava que um dia exporia ali.

Quais artistas a influenciaram?

Rembrandt, Van Gogh, Dali e Picasso – o contato que tive com eles foi por meio de livros; sonho um dia conhecer as obras originais desses artistas. Na observação das reproduções de suas obras, aprendi muito com eles e imagino o quanto poderia aprender no contato pessoal, sim, para mim o artista não morre nunca, se eterniza através de suas obras. Recentemente, quando começaram os conflitos de relações nos aeroportos da Espanha, temi não poder conhecer um dia os museus Dali e Picasso.



Quando surgiu a idéia do projeto?

A idéia do projeto surgiu em 2004. Como artista, fico reservada ao meu ateliê, pintando as minhas obras ou cuidando das obras dos outros, pois exerço também a função de restauradora, vivo da arte. Meus envolvimentos são, primeiramente, com minha arte, minhas leituras, e, depois, com meus amigos e clientes, que são o meu verdadeiro apoio. Comecei a pintar 1987; em 1990 encontrei um estilo próprio de pintar e surgiu a Via Sacra – "Quem conhece a face de Cristo?" – exposta no Senado Federal.

Depois expus "Narcisos" (fotografia), inspirada na obra de Caravaggio e também na leitura do mito. Morei na Grécia e, nesse período, fiz a série "Borboletas Brasileiras", que ainda são vendidas para amigos gregos. De volta ao Brasil, como já havia feito uma exposição cujo tema era o homem visto sob a ótica do mito de Narciso, decidi homenagear também as mulheres, diante da problemática da violência contra a mulher. Um amigo, Xavier Dysarz (já falecido), apresentou-me um livro, dizendo: "Mary Jô, se você vai falar sobre deusas e sobre a mulher, precisa ler este livro." Realmente a leitura do livro foi decisiva na criação do Giro das Deusas. Aprofundei as pesquisas literárias e o trabalho foi tomando forma; já vinha fazendo experiências com materiais recicláveis, então a contribuição de Xavier Dysarz veio bem a calhar.

Porque demorou tanto?

Ao comentar com um amigo acerca do projeto, ele aconselhou-me a buscar apoio junto à Secretaria de Cultura, através do FAC- Fundo da Arte e da Cultura. Acatei a sugestão. No primeiro contato, tive conhecimento do Sistema, precisava ter certo certificado para poder ser aceita e entrar com solicitação de recursos. Segui à risca todos os passos e fui aceita, deram-me um Certificado de Entes e Agentes Culturais. Mesmo assim tive de comprovar com certidões que estava em dia com a sociedade, fiz orçamentos, etc.

Apesar de o projeto ser sócio-educativo, voltado para a rede de escolas públicas, não adiantei o nome de eventuais escolas, pois, no meu entendimento, eu não poderia me comprometer com um estabelecimento de ensino sem ter a certeza de que meu projeto seria aceito. Isso pesou e o meu projeto foi rejeitado.

Em 2006, voltei a entrar com o mesmo projeto, dessa vez apresentando duas escolas. Mas a "Comissão Especial de Artes Plásticas" considerou que o meu projeto não apresentava uma contrapartida consistente; dos comissários apenas dois assinaram a consideração. Bem, o que me conforta é saber que meu projeto não foi rejeitado por uma comissão qualquer, mas por uma "Especial". Isso explica por que o projeto demorou tanto para ser executado.

Por que ir às escolas e não às galerias?

Primeiramente porque, como artista, eu e a escola temos muitas afinidades, sempre gostei do ambiente escolar, estudei em escola pública e lembro com muito carinho dos meus tempos de escola e também pelo distanciamento existente entre o artista, a escola e os espaços culturais.

A escola está longe dos espaços culturais em todos os sentidos, por exemplo: ostentação dos espaços fisicos, textos de curadores de difícil compreensão, acesso, falta de divulgação nas escolas. Alguns espaços, esses voltados para ações sócio-educativas e que tem apoio garantido, atendem apenas uma pequena parcela de alunos, geralmente 50 alunos por escolas, um ônibus, considerando numa escala mínima de 600 alunos 550 estão excluídos, aqui cabe uma “reflexão” dos patrocinadores, principalmente dos oficiais.


Quanto a mim, que não estou na mídia, sinto o mesmo distanciamento: esses espaços não existem para mim. Recentemente, solicitei espaço para minhas obras em dois espaços culturais que achei compatíveis com o meu trabalho, que é moderno. Tive na mesma semana pareceres diferentes, mas as obras analisadas não foram selecionadas. No entanto sugeriram que eu procurasse espaços do governo onde haja maior flexibilidade ou tentasse no próximo ano.

Então só me restou a saída de levar minhas obras para as escolas, onde estou sendo recebida com muito carinho. Com apoio de amigos, pude retomar o projeto inicial com pequenas mudanças por conta de orçamentos; percebi que o projeto tem vida própria.
Então ficou assim: a escola cede um espaço onde as obras ficarão expostas por um dia; faremos uma “Galeria Escolar” (o nome da Galeria fica a critério dos alunos); os alunos estudam o tema da exposição e, no dia agendado, visitam a galeria; eu, a artista, fico à disposição dos alunos para falar sobre o tema, a forma e o conteúdo das obras; os alunos retornam à sala de aula, respondem a um questionário sobre o que viram, o que sentiram, se conhecem alguém que se pareça com as deusas apresentadas e se poderiam executar uma obra com os materiais apresentados na obra da artista. O questionário será entregue à artista e será utilizado para compor a exposição final ao público geral. A exposição será realizada em três etapas: 1ª etapa (abril/maio) – duas escolas da rede pública; 2ª etapa – agendamento de novas escolas para julho, agosto, setembro; 3ª etapa – exposição para o público geral na Galeria do Senado Federal.

Como surge uma obra?

Ela só se manifesta depois do pleno conhecimento do tema, tendo por base a leitura. Absorvidos esses conhecimentos, entro na forma e na pesquisa de materiais. Os materiais utilizados são às vezes coletados durante os meus passeios pela cidade, como ciclista urbana. Por exemplo, na execução de Ares e Afrodite, encontrei a malha de aço na rua. No primeiro momento, hesitei em pegá-la; mas brilhava tanto, acho que me chamando! Quando a toquei, senti que era maleável; nesse exato momento a obra nasceu em sua plenitude, estava se materializando. Aquela seria a rede na qual Hefestos prendeu Ares e Afrodite. Fiquei muito feliz quando encontrei essa malha, que até hoje não sei o que é.

Com os materiais doados pelos amigos que já conhecem minha paixão pelo reaproveitamento de material, pude fazer Ártemis, Afrodite, Deméter, Perséfone, etc.
A minha relação com o material reaproveitado combina com minha natureza "Ártemis": preocupo-me com questões ambientais, sou ciclista, estou em contato com a natureza, vou ao parque da cidade, a água mineral, à feirinha orgânica. Lamento não haver em Brasília uma ciclovia ligando não somente as duas asas (norte/sul), mas também dando acesso a museus, galerias, pontos turísticos.

É preciso enfatizar que a obra realizada é fruto do trabalho do artista, que o artista é também um trabalhador, que toda obra tem um custo e que o artista precisa vender sua obra para continuar trabalhando. Obras-de-arte podem ser doadas, sim, mas só depois de compradas.


Como habitual visitante de museus e galerias em Brasília, o que você tem encontrado no momento?

Há certa tendência à fotografia; acho estranho, não tenho nada contra fotografia, até gosto, mas sinto falta da produção dos artistas plásticos. Fico refletindo... por que será que alguns espaços só mostram fotografias, que recado eles estão querendo nos passar? O CCBB, para mim, é o único espaço em Brasília que realmente nos livra dessa impressão de deserto cultural, sempre tem algo interessante para ser visto. Falo isso como visitante e apreciadora das artes, pois gosto muito do CCBB, que já faz parte de minha rotina cultural.

Uma frase

“E vou lhe dizer por quê: logo descobri que, como crítico, isso não seria ético.”

Frase que li na entrevista concedida a Veja on-line pelo crítico de arte Robert Hughes, quando perguntado se ele tinha coleções de arte.